Quarta, 29 Outubro 2025 15:58

Boletim sobre Mercado de trabalho é realizado pelo Centro de Pesquisa em Economia Regional (Ceper) da Fundace

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Este boletim analisa os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), com ênfase na Região Metropolitana de Ribeirão Preto (RMRP) e no panorama nacional. O objetivo é apresentar a evolução do saldo de empregos ao longo de janeiro a julho de 2025, comparando-o com o mesmo período de 2024. Além disso, exploramos a movimentação do mercado de trabalho em diferentes atividades econômicas e outros fatores relevantes, proporcionando uma visão abrangente sobre as dinâmicas de geração e fechamento de vagas.

A Figura 1 ilustra o saldo de empregos formais por região brasileira entre janeiro de 2024 e julho de 2025. Nela, observamos a forte influência da sazonalidade no fluxo de contratações e desligamentos. Em dezembro de 2024, todas as regiões registraram saldos negativos expressivos, resultado do encerramento de contratos temporários, muito comuns no período de fim de ano, e da prática de férias coletivas, sobretudo na indústria e no comércio. Esse padrão é uma característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro, já documentada em estudos que identificam a persistência do componente sazonal nas séries de emprego formal. Andaku e Horie (2013), por exemplo, ao analisarem a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) por meio de métodos econométricos de ajuste sazonal, demonstraram que, mesmo diante de mudanças na estrutura produtiva, os movimentos de desligamentos em dezembro e recontratações no início do ano permanecem relativamente estáveis ao longo do tempo.

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Nesse contexto, a região Sudeste apresentou a queda mais acentuada, ultrapassando o saldo negativo de 300 mil postos, fato explicado por sua maior participação relativa no mercado nacional. Contudo, em fevereiro de 2025, verifica-se um movimento inverso, onde todas as regiões apresentaram saldos positivos, com destaque novamente para o Sudeste, que superou a marca de 200 mil novas vagas.


Entre março e outubro de 2024, período caracterizado por maior estabilidade na série, observa-se que as regiões Sudeste e Nordeste concentraram os maiores saldos mensais de emprego formal, variando entre 50 e 100 mil vagas líquidas. Já as Regiões Norte, Sul e Centro-Oeste, embora tenham mantido saldos positivos, apresentaram resultados mais modestos, geralmente inferiores a 50 mil vagas.


A Figura 2 apresenta a evolução acumulada do emprego formal, padronizada a partir de uma base 100 em janeiro de 2024, o que permite avaliar o crescimento do emprego formal nas regiões, controlando o efeito do tamanho absoluto de geração de empregos. Essa abordagem evidencia que, embora o Sudeste permaneça líder em volume total de empregos, os crescimentos relativo mais expressivos ocorreram no Norte, Centro-Oeste e Nordeste.


A Região Norte, em particular, desponta como a líder proporcional, apresentando o maior índice acumulado ao final da série — superior a 108 pontos em julho de 2025, o que equivale a um aumento aproximado de 8% em relação ao estoque inicial. Essa expansão é consistente com dados recentes que indicam elevado crescimento percentual de empregos formais em setores como saúde, logística e energia na região o (Instituto de Estudos de Saude Suplementar, 2025). O Centro-Oeste e o Nordeste também apresentaram bom desempenho. Por outro lado, as regiões Sudeste e Sul, apesar de concentrarem os maiores volumes absolutos de empregos, apresentam menores crescimentos relativos. Tal comportamento é esperado em economias regionais.


Conforme os dados fornecidos pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e apresentados na Tabela 1, foram criadas 1.347.807 vagas líquidas (saldo entre admissões e demissões) com carteira assinada entre Janeiro a Julho de 2025. Esse resultado representa uma variação de -10,35% em relação ao mesmo período em 2024, quando o saldo foi de 1.503.467.


A variação negativa nacional foi puxada principalmente pelo Sudeste (-16,35%) e Norte (-15,92%), regiões com maior dependência de setores industriais e extrativistas, que sofreram retração na atividade econômica e volatilidade no emprego formal ((IPEA), 2024; (FGV), 2024). Por outro lado, o Nordeste (+7,40%) e o Centro-Oeste (+4,25%) apresentaram saldo positivo, beneficiados pelo crescimento do agronegócio e pela expansão do setor de serviços em cidades médias, mostrando maior resiliência ((FNP), 2024).


No Norte, a retração foi concentrada no Amazonas, Acre e Roraima, devido à diminuição de vagas na indústria extrativa e nos serviços urbanos, enquanto o Tocantins apresentou crescimento expressivo, provavelmente vinculado a projetos de infraestrutura e incentivos regionais ((IPEA), 2024). O Nordeste manteve expansão consistente, com destaque para Maranhão, Pernambuco e Bahia, regiões que vêm recebendo investimentos em infraestrutura e apresentam setores industriais e de serviços em crescimento, embora estados como Rio Grande do Norte e Ceará tenham registrado queda, refletindo desigualdades internas e dificuldades conjunturais ((FNP), 2024; (IBGE), 2024).


No Sudeste, a retração foi generalizada, refletindo a desaceleração industrial e do comércio em estados economicamente mais dependentes de grandes centros urbanos. Já no Sul, a variação negativa agregada ocultou diferenças internas. Enquanto o Rio Grande do Sul cresceu de forma consistente, possivelmente impulsionado pela reconstrução econômica após desastres ambientais recentes, Santa Catarina e Paraná apresentaram queda ((IPEA), 2024; (FGV), 2024). Por fim, o Centro-Oeste apresentou desempenho positivo (+4,25%), sustentado por Mato Grosso do Sul (+19,60%) e Mato Grosso (+7,73%), além da contribuição do Distrito Federal (+2,89%). Apenas Goiás apresentou retração (-2,21%). Esses resultados reforçam o dinamismo econômico regional, que está fortemente associado ao agronegócio e à expansão do setor de serviços.

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Na Tabela 2 observamos os saldos de contratações nos estados e regiões nos meses de julho de 2024 e 2025. O saldo de contratações formais no Brasil em julho de 2025 apresentou retração significativa em comparação com o mesmo mês do ano anterior, passando de 191.373 para 129.775 vínculos, o que representa uma queda de 32,19%. O resultado nacional reflete, sobretudo, o desempenho negativo das regiões Sudeste (-40,54%), Sul (-66,05%) e Norte (-41,22%), que registraram perdas expressivas no período. Em contrapartida, a região Centro-Oeste (+42,02%) destacou-se pelo crescimento robusto, enquanto o Nordeste (-3,91%) apresentou estabilidade relativa.

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A Tabela 3 apresenta a variação no saldo de vagas formais no acumulado de 2023 e 2024 na Região Metropolitana de Ribeirão Preto (RMRP), que abrange 33 municípios, incluindo Ribeirão Preto. O conjunto de municípios que compõem a RMRP registrou um saldo acumulado de 16.967 vínculos formais no período de janeiro a julho de 2025, o que representa queda expressiva de 58\% em relação ao mesmo intervalo de 2024 (40.812 vínculos). Essa variação negativa do saldo acumulado evidencia uma desaceleração significativa do mercado de trabalho regional.


O município de Ribeirão Preto, principal polo econômico da região, apresentou retração de 65%, passando de 14.844 para 5.248 vínculos. Essa variação ajuda a explicar grande parte do resultado agregado da RMRP, dada sua relevância econômica e populacional. Em 2024, a cidade registrou um saldo positivo na abertura de empresas, com 226 novas unidades, destacando-se o setor de serviços como principal responsável por esse crescimento (FM, 2024). No entanto, a taxa de inadimplência na cidade permaneceu elevada, com 29,65\% da população inadimplente no primeiro semestre de 2024 ((ACIRP), 2024).


Nos demais municípios, observam-se trajetórias bastante heterogêneas. De um lado, alguns registraram crescimento no saldo líquido de empregos, como Pontal (+54%), Luís Antônio (+32%), Pitangueiras (+24%), Brodósqui (+20%) e Dumont (+42%), indicando algum dinamismo localizado. Por outro lado, municípios tradicionalmente relevantes como Sertãozinho (-111%), Mococa (-82%), Jardinópolis (-61%) e Serrana (-79%) apresentaram quedas expressivas. Em Sertãozinho, o fechamento da Usina Santa Elisa pela Raízen resultou na demissão de 1.200 trabalhadores, impactando diretamente e indiretamente a economia local (ECONOMIA, 2025).


Destacam-se também casos extremos, como Morro Agudo, cujo saldo passou de 21 para -628 vínculos (-3090%), e Guatapará, que apresentou variação de -297%. Em novembro de 2024, a Raízen anunciou a suspensão das operações do Bioparque MB em Morro Agudo ao final do período de moagem, previsto para dezembro de 2024. Além disso, a empresa informou a venda de 900 mil toneladas de cana-de-açúcar do Bioparque Vale do Rosário para a Alta Mogiana, visando otimizar suas operações na região de Ribeirão Preto (EA1, 2024).


De modo geral, a análise evidencia que, embora alguns municípios tenham registrado avanços pontuais, a variação do saldo da RMRP como um todo foi negativa. A concentração das perdas em polos estratégicos como Ribeirão Preto e Sertãozinho reforça esse movimento de desaceleração econômica regional.


A Figura 3 apresenta a evolução do saldo mensal em cinco grandes agrupamentos de atividades econômicas, no período de janeiro de 2024 a junho de 2025. O setor de serviços destaca-se como o principal motor da geração de empregos formais no (BRASIL, 2025b). Dados do Novo CAGED indicam que, entre janeiro e julho de 2025, o setor de Serviços foi responsável por mais de 1,3 milhão de novas vagas, representando um crescimento de 2,86% em relação ao mesmo período de 2024 (BRASIL, 2025a). Esse desempenho reflete a centralidade do setor na absorção de mão de obra.


Por outro lado, a construção civil apresenta um comportamento mais volátil. Embora tenha registrado crescimento de 4,3% em 2024, com a criação de 110.133 postos líquidos de trabalho, o setor é caracterizado por oscilações significativas (CONSTRUÇÃO, 2025). Além disso, a construção civil lidera com a maior rotatividade de mão de obra no Brasil, com uma taxa de 65,66%, mais que o dobro da média nacional (HABICAMP, 2024). A indústria e o comércio, por sua vez, apresentam saldos mais modestos, mas relativamente estáveis, variando entre 0 e 50 mil vagas líquidas ao longo do período (CONSTRUÇÃO, 2024).


A Figura 4 apresenta a evolução acumulada a partir de uma base 100 em janeiro de 2024, o que permite avaliar o crescimento relativo de cada setor. Nesse contexto, a indústria geral e a construção despontam como líderes em dinamismo, mantendo as maiores taxas acumuladas de crescimento. Isso indica que, apesar de não serem os maiores geradores de vagas, esses setores expandiram mais rapidamente sua força de trabalho formal, refletindo o ciclo de expansão de investimentos e da atividade econômica em infraestrutura e produção industrial (Instituto Brasileirode Geografia e Estatística (IBGE), 2024).


O setor de serviços, embora seja o maior em números absolutos, apresenta crescimento acumulado mais moderado, mantendo, no entanto, um ritmo estável e consistente. Já o comércio e a agropecuária registram os menores aumentos relativos, com a agropecuária registrando a maior queda relativa em dezembro de 2024 e maior tempo para recuperação.


A Figura 5 ilustra a evolução do salário médio real, deflacionado pelo INPC, tanto das admissões quanto dos desligamentos no Brasil, entre janeiro de 2023 e julho de 2025. No caso das admissões, observa-se relativa estabilidade em torno de R$ 2.200,00, ao longo de 2023. A partir de então, os salários de entrada mantiveram-se próximos a R$ 2.250,00. No encerramento da série, em julho de 2025, o salário médio real de admissão foi de R$ 2.277,51, indicando leve acomodação em relação aos meses imediatamente anteriores.

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Entre os desligamentos, os salários médios reais permaneceram consistentemente acima dos observados nas admissões. Em 2023, os valores oscilaram entre R$ 2.279,90 (janeiro) e R$ 2.354,25 (dezembro), com trajetória ascendente ao longo do ano. Em 2024, o patamar se consolidou próximo a R$ 2.350,00. Em 2025, o valor chegou a R$ 2.381,19 em junho, o ponto mais alto da série. No último mês analisado (julho de 2025), o salário médio real de desligamento foi de R$ 2.365,70.


A diferença entre salários de admissões e desligamentos -- em torno de R$ 80,00 a R$ 100,00 -- sugere que os novos vínculos tendem a ser firmados com valores inferiores aos pagos aos trabalhadores desligados. Esse padrão, já apontado em estudos do mercado de trabalho brasileiro, indica tanto a substituição de trabalhadores mais experientes por mão de obra mais barata quanto a reestruturação das empresas diante de pressões econômicas. Ademais, a manutenção de salários de desligamento em patamares relativamente elevados pode refletir o perfil dos ocupados, enquanto os fluxos de admissões concentram-se em postos com menor remuneração inicial ( BARBOSA; PESSOA, 2017).


Por: Luciano Nakabashi, Rudinei Toneto Jr, Ruan Cursino Thomé e Leandro Del Picchia Torriani

Lido 206 vezes Última modificação em Quarta, 29 Outubro 2025 17:13