O boletim da indústria de maio de 2025 apresenta dados dos Índices da Sondagem Industrial e do Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), para o período compreendido entre os anos de 2017 a 2025. Também traz informações sobre emprego, rendimento médio e faturamento real da indústria de transformação.
Os gráficos e tabelas apresentados utilizam, majoritariamente, o formato de índice por difusão, metodologia comum em sondagens econômicas. Nesse tipo de índice, os valores variam de 0 a 100 pontos e refletem a percepção dos empresários em relação à atividade econômica. Quando o índice está acima de 50 pontos, indica predominância de percepções positivas (ou otimistas); abaixo de 50, sinaliza percepções negativas (ou pessimistas). Um valor exatamente em 50 representa neutralidade, ou seja, equilíbrio entre avaliações positivas e negativas.
A Figura 1 apresenta os índices de difusão da Sondagem Industrial referentes à atividade industrial média e ao número de empregados na indústria entre 2017 e 2024. Observa-se que ambos os indicadores mantiveram-se próximos do nível de neutralidade (valor 50) ao longo do período, com variações moderadas. A atividade industrial mostrou relativa estabilidade entre 2017 e 2022, com leve alta em 2021 (49,68), seguida por uma queda expressiva em 2023 (47,70) e posterior recuperação em 2024 (49,57). Já o número de empregados teve trajetória de crescimento até 2021, quando ultrapassou a linha de 50 (50,79), sinalizando expansão do emprego, mas recuou nos dois anos seguintes antes de voltar a subir em 2024 (50,13).
A Figura 2 mostra a evolução mensal dos índices de difusão da Sondagem Industrial referentes à atividade industrial e ao número de empregados entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2025. A atividade industrial apresentou forte volatilidade ao longo do período, com picos em julho (54,07) e novembro de 2024 (53,40), seguidos de quedas acentuadas, especialmente em dezembro de 2024 (42,07), o menor valor da série. Já o número de empregados manteve-se mais estável, oscilando em torno do patamar de 50, com leve tendência de alta ao final do período analisado.
Segundo Potrich et al. (2015), as decisões de investimento são permeadas por incertezas derivadas das expectativas futuras. O grau de confiança dos agentes econômicos e suas expectativas futuras podem potencializar ou restringir o consumo, o investimento e a produção industrial. A variação positiva do faturamento real da indústria impacta positivamente o índice de confiança. Em contrapartida, uma variação positiva do valor do dólar comercial no mês anterior provoca uma diminuição do índice de confiança. Portanto, as quedas na atividade industrial e no número de empregados observadas na \cref{Sondagem Industrial anual (2017-2024)} e na \cref{Sondagem Industrial mensal (2024-2025)}, podem ser parcialmente explicadas pelo aumento das preocupações do setor com a volatilidade cambial, conforme apontado pela \citeonline{cnn2024}. No fim do ano, o câmbio tornou-se um dos principais fatores de incerteza para os industriais, afetando o custo dos insumos importados, a competitividade das exportações e o planejamento de investimentos. O dólar terminou o ano de 2024 com uma valorização acumulada de 27,3\%, atingindo a cotação recorde de R\$6,18. Foi o pior desempenho da moeda brasileira desde 2020, marcando a maior desvalorização anual. A maior pressão cambial ocorreu nos últimos dias de novembro e se intensificou durante o mês de dezembro. Esse cenário de instabilidade contribuiu para a retração da produção e para o recuo nas contratações, refletindo um ambiente de maior cautela no setor industrial.
A Figura 3 mostra a evolução da Utilização da Capacidade Instalada (UCI) da indústria de transformação no Brasil entre 2017 e 2024, medido em %. Observa-se um crescimento gradual entre 2017 (65,08\%) e 2019 (67,42\%), seguido de uma queda em 2020 (65,17\%), ano marcado pelos efeitos da pandemia de COVID-19 sobre a indústria.
Santos (2022) analisa o impacto da pandemia de COVID-19 sobre a atividade industrial. Segundo o estudo, a crise econômica e sanitária provocada pelo vírus trouxe inúmeros malefícios à indústria brasileira, o que explica a queda brusca observada na \cref{Utilização da Capacidade Instalada - anual} no ano de 2020, quando a pandemia foi instaurada e os países entraram em período de quarentena. Durante a pandemia, a queda na demanda levou à redução ou até mesmo à paralisação da produção. A interrupção de algumas linhas de produção evidencia o agravamento das condições financeiras das empresas, a escassez de insumos e a retração da demanda tanto no mercado interno quanto no externo.
A partir de 2021, verifica-se uma recuperação expressiva, com a UCI ultrapassando os 69\%, patamar mantido nos anos seguintes, com pequena oscilação. Em 2024, o indicador atinge 70,17\%, o maior valor da série. Esse movimento sugere maior utilização do parque produtivo ao longo do período recente.
A Figura 4 apresenta a evolução mensal da Utilização da Capacidade Instalada (UCI) da indústria de transformação entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2025. No primeiro semestre de 2024, os níveis de UCI oscilaram entre 68,0\% e 70,0\%, com uma leve tendência de alta a partir de junho. Entre julho e outubro, observa-se um movimento de crescimento mais claro, com o indicador passando de 71,0\% em julho para o pico de 74,0\% em outubro de 2024.
A partir de novembro, o indicador apresenta queda acentuada, retornando ao patamar de 68,0\% em dezembro. Nos dois primeiros meses de 2025, a UCI permanece relativamente estável, oscilando entre 68,0\% e 69,0\%. A trajetória sugere uma forte utilização do parque produtivo no segundo semestre de 2024, seguida de desaceleração no final do ano e início de 2025.
Nesta seção, o foco se volta para o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) específico da indústria de transformação, analisando seus principais componentes: a percepção sobre as condições atuais da economia e as expectativas das empresas para os meses seguintes. O ICEI é um indicador sintético calculado pela CNI a partir dessas variáveis, com metodologia própria que atribui pesos específicos a cada uma -- ou seja, não se trata de uma média simples. Por isso, embora deva ser analisado em conjunto com seus componentes, o ICEI tem dinâmica própria e fornece uma visão consolidada da confiança dos empresários do setor.
Pela análise da Figura 5, observa-se que o ICEI da indústria de transformação variou entre 54,35 pontos (em 2017) e um pico de 60,59 pontos em 2019, antes de recuar nos anos seguintes, com destaque para a queda expressiva em 2023 (50,58 pontos), reflexo de uma piora nas avaliações dos empresários. As condições da economia, que já vinham em trajetória volátil, atingiram seu menor patamar em 2023 (40,56 pontos), o que ajuda a explicar a perda de confiança no período. Já as expectativas das empresas, embora tenham recuado desde o auge de 65,56 pontos em 2019, mostraram leve recuperação em 2024 (58,29 pontos), indicando algum otimismo, ainda que moderado.
Com base na Figura 6, observa-se que, ao longo de 2024 e início de 2025, o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) da indústria de transformação permaneceu abaixo da linha dos 53 pontos, sinalizando uma confiança fraca ou retraída dos empresários. Essa tendência acompanha, principalmente, o comportamento da variável \enquote{Condições da economia}, que apresentou queda significativa entre janeiro e julho de 2024, atingindo seu menor valor em julho (37,8 pontos), com recuperação parcial em setembro, mas voltando a cair nos meses seguintes.
Já o componente "Expectativa da empresa" manteve-se em patamar mais elevado ao longo do período, oscilando levemente entre 57,6 e 59,1 pontos até novembro de 2024, quando começou a declinar de forma mais acentuada. A diferença entre os dois componentes indica que, apesar da percepção negativa sobre as condições atuais, ainda havia certa confiança quanto ao desempenho futuro das próprias empresas.

A Tabela 1 mostra os valores do índice de Confiança do Empresário Industrial por segmento industrial (indústria extrativa e indústria de transformação) e por porte (pequenas, médias e grandes empresas), para os mês de março dos anos de 2017 a 2025. De maneira geral, o ICEI apresenta alta entre 2017 e 2019, quando atinge 62,0 pontos. Em 2020, mesmo com o início da pandemia, o índice permanece elevado (60,3), mas a partir de 2021 inicia uma trajetória de queda mais acentuada, atingindo 49,2 pontos em março de 2025 -- menor valor da série.
Entre os segmentos industriais, a Indústria Extrativa apresentou níveis consistentemente mais altos de confiança em comparação à Indústria de Transformação, especialmente entre 2021 e 2025. Quando se considera o porte das empresas, observa-se que as grandes empresas registram os maiores níveis do ICEI, reflexo de sua maior capacidade para enfrentar períodos de instabilidade econômica. As pequenas empresas registraram os menores índices, especialmente em 2023 e 2025, com 49,6 e 47,5 pontos, respectivamente.
O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) revela, em março de 2025, uma diferenciação clara conforme o porte das empresas: enquanto as pequenas e médias empresas permanecem em terreno negativo (com pontuações abaixo dos 50), apenas as grandes empresas mantêm confiança institucional, ainda que de forma limitada. A confiança das pequenas caiu 1,0 ponto e, nas grandes, houve uma queda discreta de 0,2 ponto, ao passo que as médias permaneceram estáveis. Essa disparidade reflete a maior resiliência e capacidade de enfrentar o ambiente adverso pelas grandes empresas, que contam com maior acesso a crédito, diversificação de mercado e estrutura financeira. Já as menores sentem mais fortemente os efeitos da instabilidade econômica, juros elevados e perspectivas negativas sobre o consumo e investimentos, elevando incertezas sobre condições atuais e futuras s ( ˜ UOL Economia, 2025).
A Figura 7 apresenta a variação percentual mensal da produção física da indústria entre maio de 2024 e abril de 2025, com destaque para três segmentos: indústria geral, indústria extrativista e indústria de transformação. Observa-se uma forte volatilidade nos primeiros meses, especialmente em maio e junho de 2024, quando as três séries registram variações expressivas, positivas em junho, após queda em maio. A partir de julho de 2024, as oscilações se tornam mais moderadas, embora ainda haja alternância entre crescimentos e recuos.
A indústria extrativista apresenta comportamento mais errático ao longo do período, com variações abruptas, como as quedas em julho de 2024 e janeiro de 2025, seguidas de altas expressivas em fevereiro e março de 2025. Já a indústria de transformação, embora também apresente oscilações, segue trajetória mais suave e próxima da linha da indústria geral. Em geral, o gráfico evidencia a influência das variações setoriais sobre o desempenho agregado da indústria e destaca a maior instabilidade da produção extrativista frente à transformação.
Por: Luciano Nakabashi, Rudinei Toneto Junior, Ruan Cursino Thome, Julia Gonçalves Ernandes.